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O protagonismo das mulheres na Independência da Bahia

Por em 7/07/2026 Atualizado em 07/07/2026 14:35

Foi na Bahia! O protagonismo das mulheres na Independência da Bahia

Quando falamos em Independência da Bahia, nomes como Maria Quitéria, Joana Angélica e Maria Felipa ajudam a revelar um aspecto muitas vezes esquecido da história: a participação das mulheres no processo que culminou na expulsão definitiva das tropas portuguesas em 2 de Julho de 1823.

A história da emancipação brasileira costuma ser contada a partir do 7 de Setembro de 1822. No entanto, na Bahia, o processo se estendeu um pouco mais.

Maria Quitéria: a “Mulan brasileira” na Independência da Bahia

Muito antes de a Disney popularizar o filme Mulan, já existia, na Bahia, a história real de uma mulher que utilizou estratégias de combate semelhantes às atribuídas à personagem.

A comparação surge pela ideia da jovem que se disfarça como homem para lutar em uma guerra, mas é importante destacar que Mulan não pertence originalmente ao universo da Disney: trata-se de uma antiga lenda chinesa, registrada em tradições orais e no poema clássico A Balada de Mulan, que foi posteriormente adaptada e reinterpretada ao longo dos séculos na cultura asiática.

No Brasil, porém, essa estratégia de disfarce e entrada no campo militar teve uma protagonista histórica concreta e única nas lutas pela Independência: Maria Quitéria.

Em meio aos combates contra as tropas portuguesas que ocupavam a região, Maria Quitéria cortou os cabelos, vestiu roupas masculinas e entrou para o batalhão. Tal gesto é considerado profundamente ousado para um contexto em que a participação feminina nos espaços militares era praticamente inexistente.

Para se alistar, ela adotou o nome de Soldado Medeiros, apresentando-se como homem. Sua identidade acabou sendo descoberta quando um parente a reconheceu e informou as autoridades militares. Mesmo assim, sua trajetória não foi interrompida.

Maria Quitéria: a primeira mulher condecorada militarmente do Brasil

Após a revelação de sua verdadeira identidade, Maria Quitéria permaneceu no Exército, pois sua coragem, disciplina e desempenho em combate fizeram com que fosse respeitada pelos oficiais.

Com o tempo, tornou-se a primeira mulher condecorada militarmente no Brasil, consolidando seu lugar como uma das figuras mais importantes no processo de emancipação.

Mas ela não esteve sozinha…

Outras baianas também representaram resistência fora dos campos de batalha, protagonizando conflitos contra as tropas inimigas de formas diferentes, mas igualmente decisivas.

Joana Angélica: resistência no Convento da Lapa

O Convento da Lapa, em Salvador, tornou-se palco de um dos conflitos mais marcantes da luta pela Independência da Bahia, em fevereiro de 1822.

Em meio às tensões políticas nas ruas, que marcaram o processo de ruptura entre Brasil e Portugal, ocorreu um episódio no qual militares portugueses tentaram invadir o convento onde viviam mulheres religiosas.

Naquele momento, a superiora Joana Angélica assumiu uma postura de enfrentamento direto e foi até a porta de entrada. Ao perceber a invasão iminente, colocou-se de prontidão à frente das tropas, para impedir que entrassem e ferissem as demais meninas.

Durante seu gesto de bravura, a madre superiora foi assassinada pelos soldados portugueses.

Sua morte ultrapassou o acontecimento individual e passou a simbolizar a resistência baiana diante da ocupação portuguesa, evidenciando que a coragem não se faz apenas nos campos de batalha, mas também por meio da proteção da comunidade e defesa da vida.

Maria Felipa: liderança popular em Itaparica

O protagonismo feminino também teve um capítulo importante na Ilha de Itaparica.

A itaparicana Maria Felipa é lembrada como uma das principais lideranças contra as tropas portuguesas.

Segundo a memória local, ela teria organizado um grupo formado por mulheres, pescadores e trabalhadores para enfrentar os invasores e montar estratégias de ataque. Entre as estratégias atribuídas, estariam emboscadas e o uso do fogo para atacar embarcações e dificultar o avanço das forças opostas na região.

Sua existência segue sendo objeto de debate por parte da historiografia, principalmente pela escassez de documentos produzidos na época que comprovem os acontecimentos narrados pela tradição oral. Apesar disso, seu protagonismo ocupa lugar de destaque na memória do 2 de Julho e em suas celebrações.

Em reconhecimento à importância dessa memória, Maria Felipa foi inscrita, em 2018, no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, tornando-se uma das principais referências femininas da luta pela consolidação da Independência do Brasil.

As Caretas do Mingau de Saubara

A resistência à ocupação portuguesa também assumiu formas inusitadas. Um dos episódios mais curiosos envolve as Caretas do Mingau, tradição preservada no município de Saubara, no Recôncavo Baiano.

Segundo a memória local, mulheres vestiam panos brancos e máscaras para simular a presença de “almas penadas”. Enquanto percorriam as ruas durante a noite, gritavam “Olha o mingau!” em tom estridente, com o objetivo de assustar os soldados portugueses e provocar confusão entre as tropas.

A estratégia buscava dificultar a circulação dos militares portugueses e facilitar a movimentação dos grupos que apoiavam a resistência. Mais do que uma curiosidade histórica, as Caretas do Mingau revelam como a criatividade e a participação popular também contribuíram para a emancipação da nação.

A Independência foi uma Conquista do Povo

As histórias dessas mulheres são extraordinárias e de muita resistência, mas as lutas foram muito além…

A consolidação da Independência do Brasil no território baiano foi resultado de uma intensa mobilização popular que reuniu homens e mulheres de diferentes origens, condições sociais e formas de atuação. Muito além dos quartéis e das lideranças políticas, a resistência contra as tropas portuguesas contou com a participação de:

  • Pessoas negras (livres e escravizadas)
  • Povos Indígenas
  • Pescadores e Marisqueiras
  • Religiosos
  • Trabalhadores

Todas essas comunidades apoiaram os combates, organizaram estratégias e contribuíram para a expulsão definitiva dos portugueses. Além deles, vários anônimos que nunca entraram nos livros de História, mas que tiveram ações fundamentais para o sucesso do levante do 2 de Julho.

O 2 de Julho foi além do 7 de setembro para a Independência

Sobre Independência do Brasil, o 7 de Setembro de 1822 costuma ocupar o centro de muitas narrativas. No entanto, a proclamação feita por Dom Pedro I não encerrou os conflitos em todo o país. Na Bahia, as tropas portuguesas permaneceram no território e os confrontos se intensificaram ao longo dos meses seguintes.

A resistência organizada por militares e pela população local foi decisiva para expulsar definitivamente os portugueses.

Foi somente no 2 de Julho de 1823 que as tropas portuguesas foram efetivamente expulsas e que se consolidou a Independência na província baiana. Por isso, a data é considerada um marco fundamental da história do Brasil e simboliza o triunfo popular na luta pela soberania nacional.

Por isso, mais do que uma celebração regional, o 2 de Julho nos lembra que o processo de emancipação foi construído em diferentes territórios e que ela só se tornou efetiva após meses de guerra, mobilização popular e protagonismo de homens e mulheres que lutaram pela liberdade na Bahia.

Para os baianos, a Independência não foi proclamada, foi CONQUISTADA!

Não foi silenciosa.
Não foi só militar.
Não foi só elite.

Foi popular.
Foi feminina.

Foi negra.

Foi indígena.
Foi coletiva.

FOI NA BAHIA!

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Anna Clara Pacheco

colunista

Nascida na Amazônia, criada entre Belém do Pará e Salvador, Anna Clara é historiadora, pesquisadora e apaixonada pelas culturas latino-americanas, especialmente pelas religiosidades populares e pelos saberes tradicionais. Entre livros, história, espiritualidade, esportes e arte, acredita na cultura como espaço de sensibilidade, troca e construção de pertencimento.

Anna Clara Pacheco escreve sobre CuriosidadesNotícias