Literatura

Lançamento literário celebra ancestralidade na Casa do Olodum

Por em 14/07/2026 Atualizado em 14/07/2026 19:51

No dia 24 de julho (sexta-feira), às 19h, a Casa do Olodum, no Pelourinho, será palco de um lançamento literário duplamente festivo. A conselheira da instituição, pedagoga afrocentrada e contadora de histórias, Carla Pita, celebra seus 50 anos estreando na literatura com ‘O abraço da Víbora-do-Gabão e outros sete contos mágico-encantados’. Ilustrada pelo  escritor e ilustrador carioca Edson de Souza, a obra marca o nascimento da Editora Irê Afropedagogia e abre as portas da Trilogia Ndoki

Programação do evento

O lançamento contará com uma programação especial:

  • Bate-papo com autora e ilustrador
  • Apresentação dos alunos da Escola Olodum
  • Encontro com o público no Pelourinho

“O Olodum é um amor antigo, uma grande paixão de adolescência que hoje se encontra com a maturidade da pedagoga afrocentrada que me tornei. Ingressar na Escola Olodum como educadora de lideranças afrodescendentes e, posteriormente, me tornar Conselheira da instituição foram passos fundamentais nessa história”

Tecido na encruzilhada entre a literatura mágico-encantada, a ancestralidade africana e a tradição oral dos terreiros, o livro é um manifesto de literatura de cura. As histórias são baseadas nas vivências de Carla Pita em Angola e em comunidades tradicionais de terreiro na Bahia. “Trabalhei e vivi na Angola profunda, de Cabinda ao Cunene, durante muitos anos; um reencontro ancestral que se tornou o grande divisor de águas da minha vida”, destaca. 

Mas, essa imersão também trouxe dor e impotência à autora, que testemunhou graves violações de direitos contra crianças, mulheres e anciãos acusados de feitiçaria.

“As violências e a consequente exclusão social crescem em toda a África Subsaariana. Suas raízes são truculentas, plantadas pelo colonialismo europeu e alimentadas hoje pela expansão de igrejas neopentecostais, cujos discursos incendiários de seus líderes associam a pobreza e a doença a ‘espíritos malignos’, marginalizando curandeiros, kimbandeiros, sobas e terapeutas tradicionais”

Escrever foi a resposta a essa realidade. No livro, o leitor será conduzido pela sabedoria ancestral africana, através de elementos afrofuturistas, e provocado a olhar o mundo por outra perspectiva, no qual a harmonia do corpo, da mente e da comunidade depende do respeito, da escuta e do vínculo inquebrantável com os nossos antepassados.

Território sagrado

As histórias se passam no território sagrado da Aldeia Hossi, onde personagens encontram força para despertar o ‘leão interior’. No conto que dá título ao livro, a guerreira Nambela é guiada por Ondjila, uma reverência direta a Exu Mavambo, divindade que rege os caminhos da própria autora. “Eu caminho sob a égide de Exu; Exu Mavambo é o magnânimo Ndoki da minha vida. É ele quem abre os caminhos e rege o meu destino. Essa conexão espiritual transborda para a minha trilogia”. 

Os três livros – os outros dois estão em processo de finalização – são baseados em uma pedagogia afrocentrada e emancipatória, através da abordagem de temas como afrofuturismo, ancestralidade, cultura afro-brasileira e espiritualidade. 

“Na minha prática, transformo esses pilares em vivências concretas através da contação de histórias e de jogos e brincadeiras afro-referenciados. É assim que apresento a riqueza histórica, a ciência e a inventividade dos povos africanos, sua relação harmônica com a natureza, o respeito aos mais velhos e o senso de comunidade. Levar essa perspectiva para a sala de aula e projetos socioculturais é um ato de reparação histórica. É um movimento que eleva a autoestima das crianças negras e ensina as crianças não negras a valorizarem a diversidade que construiu e pavimentou o Brasil”

Mais do que entretenimento, a obra carrega o selo da Irê Rebeliões Culturais e Afro-Pedagógicas, iniciativa idealizada por Carla Pita que é pedagoga com especialização em Educação Inclusiva, e atua há 15 anos promovendo a educação para as relações étnico-raciais e a Lei 10.639/03. O livro condensa essa bagagem pedagógica, sendo recomendado tanto para jovens e adultos, quanto para educadores e contadores de histórias que buscam expandir o repertório cultural afro-referenciado.

Parceria espiritual

O universo visual de ‘O abraço da Víbora-do-Gabão e outros sete contos mágico-encantados’ ganha vida pelas mãos do cientista social, grafiteiro, ilustrador e desenhista autodidata Edson de Souza. Para tornar a ficção decolonial ainda mais palpável para o público juvenil e adulto, o artista utilizou uma estética sóbria inspirada em HQs de super-heróis, tendo no Pantera Negra sua maior referência. 

“Entendendo que a obra conversa com o público juvenil e adulto – pela densidade de sua imagética e a escrita cheia de nuances de Carla -, pensei em aproximar o meu traço do estilo das ilustrações de revistas em quadrinhos de super-heróis, em particular do artista Brian Stelfreeze, que desenhou a revista do Pantera Negra. Ele possui um estilo sóbrio sem muitos maneirismos, o que emula uma suposta realidade que conduz a leitura, tornando crível a ficção” 

Segundo o artista, a colaboração com a autora e educadora baiana se deu através de uma conjunção espiritual, artística e mental. “Como Carla bem reforça, esta parceria já é planejada por ela há muito tempo, após ter contato com a minha arte. Mas, os caminhos são de Exú, e nos encontramos nesta encruzilhada de vivências no tempo certo para a realização deste livro. Ela me enviou uma mensagem na sexta-feira de carnaval, me convidando a ilustrar seu livro. Eu respondi: ‘estou pronto’! O restante é história…”

SERVIÇO

  • O que: Lançamento do livro ‘O abraço da Víbora-do-Gabão e outros sete contos mágico-encantados’ (Editora Irê, 63 páginas), de Carla Pita, com ilustrações de Edson Souza. 
  • Bate-papo com a autora e o ilustrador; apresentação dos alunos da Escola Olodum.
  • Quando: 24 de julho (sexta-feira), às 19h
  • Onde: Casa do Olodum – Rua Gregório de Matos, 22, Pelourinho, Salvador 
  • Público-alvo: Jovens, adultos, educadores e público geral
  • Quanto: Entrada gratuita Livro: R$ 70,00

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Nilma Gonçalves

colunista

Jornalista graduada pela Facom/ UFBA. Tem passagens por veículos como TV Bahia, rádios Educadora e Excelsior, iBahia e jornal A Tarde. Foi repórter e editora de Cultura do jornal Correio. Também é Assessora de Comunicação, com trabalhos nas Prefeituras de Salvador e de Irecê, Diretoria de Museus (IPAC), Panorama Internacional Coisa de Cinema, Editora Solisluna e Academia de Letras da Bahia.

Nilma Gonçalves escreve sobre LiteraturaNotícias