O arrocha transforma sofrimento amoroso em música e conquista corações pelo país

Foto: Reprodução/Instagram/ranmysampaiocantora/tayrone/pablo_oficial
Um teclado, uma guitarra e no microfone uma letra tão sofrida que quase é possível escutar o barulho do “chifre” arrastando no chão. Enquanto algumas pessoas levantam seus copos de cerveja, outras dançam coladinhas ao som do “arrocha, arrocha”. Seja sobre paixões e/ou traições, o arrocha é garantia de sentimentalismo. O ritmo é descendente direto da seresta, possui influências do bolero e surgiu da modernização da seresta através do teclado arranjador, na cidade de Candeias, região do Recôncavo Baiano, nos anos de 1990.

IO termo “arrocha” surgiu originalmente como uma expressão popular entre cantores para incentivar o público a dançar de forma próxima, ou “coladinha”. Com o sucesso da banda Asas Livres e do seu então vocalista Pablo, a expressão ganhou destaque e, gradualmente, passou a definir um gênero musical próprio.
Hoje considerado um estilo clássico, o arrocha se caracteriza pela combinação do saxofone e da guitarra com o teclado arranjador, criando uma sonoridade marcada pela sensualidade, que dialoga com o sentido original da expressão. O ritmo é conhecido no Brasil inteiro, mas principalmente no Nordeste do país e conta com diversos artistas renomados, como Nara Costa, Pablo (ex- Asas Livres), Tayrone e Silvano Salles, que se solidificaram em meados dos anos 2000, com shows que levavam multidões.

Um catalisador importante para o reconhecimento do estilo e seus artistas, era a venda pirata de CDs, consumidos em sua maioria por pessoas de baixa renda. A professora e pesquisadora do tema, Nadja Vladi (UFRB), explica que os shows e gravações de estúdios eram revendidos em cópias pirateadas. “Não era um problema para os artistas desse gênero, pois assim eles ficavam à frente de outros, que por acaso fossem contra esse método de pirataria. Na verdade, o que eles queriam era vender os shows e quanto mais discos piratas circulavam, mais pessoas apareciam”, diz Vladi.
Sofrência em alta
Segundo a visão de Vladi, à medida em que o arrocha se espalhava pelo país, ganhava características de um “pop periférico”. Entre 2004 e 2007, artistas como Tayrone e Nara Costa, além das bandas Asas Livres e Latitude 10, passaram a investir em shows mais elaborados, com longa duração, orquestras de saxofones, guitarras e o característico teclado. As apresentações também passaram a incluir dançarinos e coreografias, reforçando o apelo visual e performático do estilo. Com as gravações de DVDs dos shows, foi criada uma tendência que aproximou o arrocha a uma performance, dos shows “business” das músicas pop, além de compensar a falta de videoclipes.
O arrocha também impactou de forma significativa alguns gêneros populares, como o pagodão (pagode baiano) e o sertanejo. Essa influência deu origem a estilos distintos e a algumas vertentes, como, por exemplo, a arrochadeira, representada por bandas como Novo Ton, Bonde do Maluco e Trio da Huanna.
Talvez o impacto mais visível tenha ocorrido no sertanejo. Cantoras como Marília Mendonça e Maiara e Maraísa lideraram uma tendência bastante atual: a da música de sofrência. Esse termo sempre foi significativo dentro do universo do arrocha e já era utilizado para definir músicas que retratavam tristezas extremas, causadas por amores não correspondidos, corações partidos e até mesmo pela culpa decorrente da infidelidade.

“Tierry: Guarda meu segredo, eu estou com medo dela não voltar.
Pablo: Eu sei que ela te ama e que na sua cama ela quer estar.
Mas sinto lhe dizer, foi preciso perder pra valorizar” . Música “Aceita que dói
menos”, Banda Fantasmão e Pablo.
É comum que cantores do meio colaborem com o sertanejo, seja participando de músicas ou compondo para artistas do gênero. Um exemplo é o cantor Tierry, ex-integrante da banda Fantasmão, que hoje se destaca tanto como intérprete quanto como compositor. Ele já assinou sucessos gravados por grandes nomes do sertanejo, como Jorge e Mateus, Simone e Simaria e Gusttavo Lima.
Nadja acredita que essa intersecção inseriu o arrocha em um mercado musical popular que é muito predominado pelo sertanejo, mas que vem ganhando bastante espaço nos últimos anos. “A sofrência é um ponto importante. Essa sofrência do amor se cruza com o sertanejo e se insere no mercado musical através de uma perspectiva mais contemporânea, além de se vincular com mais força à indústria da música”, completa a jornalista.
O arrocha está em constante renovação, explorando alternativas criativas a fim de acompanhar as tendências do cenário musical. Além disso, há um investimento crescente em videoclipes, o que reforça a presença digital dos artistas. Paralelamente, alguns nomes têm incorporado elementos do pop à sua sonoridade. Um exemplo é o cantor Kart Love, que aposta em experimentações sonoras: na faixa “Ligou Pra Quê?”, ele faz referência ao grupo Rouge e ao sucesso “Ragatanga”; enquanto isso, em “Sei Que Te Amo”, adiciona influências do pop rock à sua musicalidade.
O mercado do arrocha hoje
O produtor musical e também empresário Carlos Dyego, mais conhecido como Dyego Kof, está sempre ligado nas tendências do mercado do arrocha. Ele acredita que com a era digital há uma facilidade maior em surgir novas promessas. “Antigamente para você estourar um artista tinha que ter um investimento muito alto. Existia um tempo de aposta e uma construção musical de muitos anos. Hoje é possível estourar um artista em poucos meses. Quantos artistas surgiram de uma forma gigantesca no mercado, sem mesmo terem feito um barzinho ou com pouco tempo de carreira, então a tecnologia faz toda a diferença”, acrescenta Kof.
Essa facilidade se deve, em grande parte, à movimentação nas redes sociais. Atualmente, com o uso de tráfego pago, é possível divulgar um número maior de artistas em diversas plataformas digitais. Além disso, aplicativos como Instagram e TikTok têm se consolidado como vitrines para lançamentos e apostas de novos hits musicais. Dyego destaca que uma presença forte nas mídias digitais é fundamental para a promoção de eventos. No entanto, ele ressalta a importância de conhecer bem a região e os artistas em evidência, ou seja, aqueles que estão com o repertório atualizado e “na boca do povo”, seja por meio de covers ou de músicas autorais.
“Às vezes não adianta o artista ser apenas bom, ele tem que estar ’despontado’ naquela cidade, o público tem que estar consumindo suas músicas. Então às pode acontecer do artista ser reconhecido em uma cidade, mas em outra, ele não tem a potência de levar o público para o evento. Existe uma diferença para o público, entre ouvir e gostar de um artista e de querer ir para determinado show”, finaliza Dyego.
Ranmy Sampaio
A falta de reconhecimento continua sendo um grande desafio, principalmente para artistas e bandas em início de carreira ou que ainda não alcançaram a fama. Quando se trata do aspecto contratual, há uma desvalorização dos artistas independentes e de menor projeção. A cantora de “sofrência”, Ranmy Sampaio, natural do município de Cabaceiras do Paraguaçu (a 33 km de Cachoeira) e residente em São Félix, compartilhou em entrevista algumas das principais dificuldades que enfrenta com determinados contratantes.
“Eu acredito que muitas pessoas passam por isso. A gente faz um trabalho profissional, nos dedicamos, estudamos, ensaiamos e fazemos de tudo pra levar um show bom e organizado. Mas sempre tem aquele contratante que não valoriza. Você dá o seu valor e eles querem pagar menos do que você merece. Por exemplo, se eu cobro 500 reais ao contratante, eles querem pagar 200, sabendo que eu tenho meus gastos, e tenho que pagar o valor que minha banda merece”, desabafa a cantora.

Foto: Reprodução/Instagram/ranmysampaiocantora
Ranmy acredita que existe um descompromisso por parte de alguns contratantes com os artistas menores, por esses ainda não estarem “emplacados” de sucessos. “Isso acontece quando você não está ‘estourado’. Quando você está estourado você pode pedir o que for que o contratante vai te pagar. E pra gente que ainda está no início da carreira, eles querem pagar no tempo deles, não são todos, mas tem vários. Você pode ter talento o que for, mas, se você não for estourado não tem jeito, tem que passar por tudo isso e aguentar o processo”.
Leia também: III Arraiá Reggae acontece de graça no Pelourinho com bandas e Djs
Apesar dos impasses, Ranmy Sampaio e sua banda vêm conquistando cada vez mais reconhecimento em São Félix, assim como em outras localidades do Recôncavo baiano. Segundo o produtor e guitarrista Igor Diniz, o grupo tem se surpreendido positivamente com a repercussão do seu trabalho. Além disso, a banda percebe o crescimento da sua música em diferentes regiões. “Tem certos lugares que a gente vai e a galera pede nossa música. É uma surpresa para nós. Uma vez fomos tocar na zona rural de Cabaceiras e ali havia pessoas que queriam escutar as nossas músicas. Então, é uma alegria para a gente saber que nosso trabalho está indo além do que esperamos”, afirmou.
Com o objetivo de alcançar maior reconhecimento, o grupo Ranmy Sampaio tem investido na realização de seus próprios eventos. Essas produções funcionam não só como uma alternativa de lazer e cultura na cidade, mas também como uma estratégia importante. Dessa forma, o grupo reduz a dependência de contratantes para a realização dos seus shows. Além disso, essa autonomia permite maior controle sobre a agenda e fortalece a presença do grupo na região.
“Estamos pensando mais alto. Nosso foco não é apenas o dinheiro, claro que precisamos dele pois vivemos disso, mas nosso objetivo é o reconhecimento e não estar ali apenas para matar cachê, sem uma visão de futuro. Queremos crescer, sermos reconhecidos e valorizados”, completa a artista.
No cenário musical brasileiro, o arrocha destaca-se como uma importante manifestação cultural. Ao longo dos anos, ele tem transcendendo fronteiras regionais e conquistado cada vez mais os corações dos brasileiros. Originado no Recôncavo Baiano, esse ritmo popular ganha força continuamente. Isso acontece porque ele se mescla com elementos contemporâneos, criando uma sonoridade atual, envolvente e cativante. Além disso, diversos artistas talentosos têm se destacado por meio de letras poéticas e melodias marcantes. Eles estabelecem uma conexão direta com um público diversificado, que encontra nas músicas do arrocha uma verdadeira trilha sonora para suas próprias histórias de “sofrência”.






