O Dia do Capoeirista homenageia os corpos que transformaram movimentos, cantos e rodas em uma das maiores expressões da cultura brasileira. Mais do que luta ou dança, a capoeira é uma forma de resistência, preservação de saberes e construção da história do país.

O Corpo como Resistência
Muito antes de ser reconhecida como patrimônio cultural, a capoeira nasceu entre africanos escravizados e seus descendentes como uma prática de resistência diante da violência da escravidão.
Por meio dos movimentos corporais, da musicalidade e das rodas, a capoeira preservou identidades, fortaleceu vínculos comunitários e criou formas de enfrentar as opressões impostas pelo período escravista.
Durante parte de sua trajetória, a prática foi perseguida e criminalizada pelo Estado brasileiro. Ainda assim, continuou sendo transmitida entre gerações, mantendo vivos conhecimentos e tradições afro-brasileiras.
A Capoeira Alcançou muitos Espaços: Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade
Em cada movimento, canto e roda, preservaram-se saberes, identidades e formas de enfrentar a violência da escravidão. Com o passar do tempo, a capoeira conquistou reconhecimento como uma das mais importantes manifestações culturais do Brasil.
O Ofício dos Mestres de Capoeira e a Roda de Capoeira são reconhecidos como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Além disso, em 2014, a Roda de Capoeira recebeu o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO. Esse reconhecimento destaca a importância da capoeira como uma prática que reúne música, dança, luta, ancestralidade e memória coletiva.
O Corpo Movimenta a História
A prática da capoeira demonstra que a história do Brasil não foi construída apenas por documentos escritos, mas também por corpos que resistiram, ocupando espaços e preservando tradições. Assim, cada movimento da capoeira carrega marcas de diferentes gerações que encontraram na roda uma forma de existir através do processo de ensino e aprendizagem, de modo a transformar muitas realidades no país.
Hoje, a capoeira ultrapassa os limites das rodas tradicionais e está presente em escolas, universidades, projetos sociais, centros culturais, academias e praças, fortalecendo comunidades e formando novos praticantes.
A resistência continua! Agora também por meio da educação, da cultura e da transmissão de saberes.
Quem Mantém a Capoeira Viva
Nesse sentido, a resistência esteve também na continuidade da prática, graças ao trabalho de muitos mestres e mestras capoeiristas que dedicaram suas trajetórias à preservação e ao ensino dessa tradição.
Entre os grandes nomes da capoeira estão:
Mestre Bimba (1899 – 1974) – Criador da Capoeira Regional, foi fundamental para a valorização e reconhecimento da prática no Brasil.
Mestre Pastinha (1889 – 1981) – Grande referência da Capoeira Angola e defensor da preservação de suas tradições.
Mestre Canjiquinha (1925 – 1994) – Discípulo de Mestre Aberrê, reconhecido por sua musicalidade, criatividade e pela formação de novas gerações de capoeiristas.
Mestre João Pequeno (1917 – 2011) – Discípulo de Mestre Pastinha e importante guardião da Capoeira Angola.
Mestre Moa do Katendê (1954 – 2018) – Mestre de Capoeira Angola, compositor, percussionista e educador, dedicou sua trajetória à valorização da cultura afro-brasileira, da ancestralidade e da luta antirracista.
Mestre Bezerra (1944 – 2026) – Maranhense, teve papel fundamental na consolidação da capoeira em Belém do Pará, contribuindo para o fortalecimento da capoeira na região amazônica. Foi mestre da pioneira da capoeira feminina, a Mestre Cigana.
Mestre João Grande – Um dos principais difusores da Capoeira Angola no Brasil e no exterior.
Mestre Moraes – Fundador do Grupo de Capoeira Angola Pelourinho (GCAP), referência na valorização da ancestralidade africana.
Entre as mulheres que ampliaram o protagonismo feminino nas rodas, destacam-se:
Mestra Janja – Historiadora, pesquisadora e uma das principais vozes femininas da capoeira contemporânea, atuando na valorização das mulheres na roda.
Mestra Cigana – Referência na formação de novas gerações de capoeiristas e na ampliação do protagonismo feminino, nasceu no Rio de Janeiro e iniciou na capoeira em Belém do Pará com Mestre Bezerra.
Mestra Nani – é uma importante mestra de Capoeira Angola em Salvador, neta e herdeira direta do legado do renomado Mestre João Pequeno de Pastinha.
Mestra Bia – Nascida e criada no complexo do Nordeste de Amaralina, em Salvador, tornou-se a primeira mestre de capoeira daquela comunidade em 2006.
Tradição que faz Parte da Paisagem Cultural de Salvador
Em Salvador, a capoeira forma parte da identidade cultural da cidade. Nas rodas espalhadas por bairros, praças e centros históricos, mestres e mestras mantêm viva uma tradição que atravessa gerações.

Em 2024, foi inaugurada a Arena da Capoeira, localizada na atual Praça Maria Felipa. O espaço possui arcos de aço de 12 metros que formam a imagem de um berimbau e dez esculturas em bronze que homenageiam grandes mestres da capoeira.
A escolha do local reforça a ligação com um tradicional ponto de encontro dos capoeiristas próximo aos marcos históricos da região do Comércio.

Outro símbolo da presença da capoeira na cidade é o monumento instalado no Dique do Tororó, inaugurado em 2019 em homenagem a Mestre Moa do Katendê. Artista, educador, ativista e capoeirista, Assassinado em 2018 por uma briga política, Mestre Moa deixou uma trajetória marcada pela valorização da cultura popular e da luta antirracista.
Outros Espaços em que a Capoeira é Protagonista
- Fundação Mestre Bimba (Pelourinho)
- Associação de Capoeira Mestre Bimba (Centro Histórico)
- Forte da Capoeira (Santo Antônio Além do Carmo)
- Centro de Capoeira Angola da Bahia (Santo Antônio Além do Carmo)
- OKAN – Arte, Movimento e Cultura (Jaguaribe)
- Espaço Casa de Palha (Itapuã)
- Centro de Ensino Camugerê (Itapuã)
- Associação Cultural de Capoeira Movimento de Corpo (Castelo Branco)
A Ginga Continua
A capoeira transformou resistência em memória e educação. Hoje, cada roda reafirma que alguns legados não pertencem apenas ao passado: eles continuam vivos em quem ensina, aprende, luta, canta e joga.
Porque algumas histórias não terminam. Elas continuam sendo conduzidas pelos movimentos do corpo!





